A fotografia e a ideologia da sua reprodutividade

em Dicas & Tutoriais.

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Auto retrato: Felix Nadar e seu Balão, Paris, 1850

A ideologia da reprodutividade técnica é , na sua essência, a própria continuidade da ideologia mercantilista.

      Mesmo teóricos como Walter Benjamin consideraram a imagem fotográfica como um desenvolvimento da pintura renascentista mediada pelo uso da câmera escura. Os primeiros retratos foram extensões de poses já transcritas pela pintura. Os gestos da corte francesa foram finalmente socializados, pois, embora a nobreza fosse uma clientela difícil, exigia um trabalho perfeito. Com o objetivo de satisfazer o gosto da   época, o pintor tinha de evitar as cores reais e substituí-las por tons mais delicados; a tela, por outro lado, deveria ser de um relevo apropriado para reproduzir melhor a superfície da seda e de outros tecidos.

      Para o burguês, representar-se era mais do que uma simples identificação pessoal, era um culto de classe ao individualismo que a filosofia cartesiana exprimia  com: eu penso, logo existo. E, nada é tão cartesiano quanto o “instante fotográfico” – o eu penso só pode acontecer na revelação de um instante. O retrato fotográfico corresponde a uma fase particular da evolução social: a ascensão de novas classes sociais tinha um significado político e social. Os precursores do retrato fotográfico surgiram em estreita relação com esta evolução. O “deixar-se fotografar”, privilégio de poucos durante vários séculos, passava agora por um processo irreversível de democratização. “A busca de algo parecido com o retrato do cliente francês na época de Luís XV e Luís XVI, pode-se definir pela tendência geral de falsear e mesmo de idealizar cada rosto, inclusive o do pequeno burguês, para que ficasse mais parecido com o tipo humano dominante: o Príncipe”. (Waetzold, 1908)

      Os pressupostos de Walter Benjamin objetivaram a remodelação dos conceitos de cultura e estética, a partir da experiência suscitada pela reprodutividade técnica. Mas, por que esta questão aparentemente técnica adquiriu tal relevância? Benjamin responderá: porque tal “possibilidade multiplicativa fere os valores que convertiam, até agora, a obra numa espécie de sucedâneo de uma experiência religiosa”. (Benjamin, 1982, p.217) De fato, a relação de arte dependia da instauração de três elementos: aura, valor cultual e autenticidade, e a interação dos mesmos. Além desses elementos. Benjamin se referia também  à  unicidade, ou seja, a impossibilidade de reprodução da obra, a não ser por sua falsificação. Mas, questionando as origens filosóficas que conceituaram estes três elementos (aura, valor cultural e autenticidade) como fez o discurso industrial emergente, não é difícil perceber as consequências que abalaram os alicerces da teorização clássica. Em outras palavras, Benjamin mostrou o lastro ideológico, a ausência de incisão entre o senso comum e as categorias, aparentemente substantivas, da estética ocidental. Benjamin, procurarava especificidade do discurso da arte na época de sua reprodutividade técnica. Nesse sentido,sua visão das novas formas de arte ( fotografia e cinema ), embora  às vezes possa parecer contraditória , é  mais adequada  à  compreensão da indústria cultural, ao contrário daquelas de Adorno e Marcuse. É  sua releitura do significado técnico da obra de arte que permitiu romper com posturas teóricas “mistificadas” e dadas como universalmente válidas.

      Se na fotografia já  estava contido o germe da reprodutividade técnica, com ela, agora, a câmera adere ao corpo. é  uma simples extensão do olhar, se dirige para onde se quer, uma espécie de terceiro olho, que permite fotografar sem pensar. Com as primeiras câmeras Kodak, lançadas em 1888, juntamente com o slogan “você  aperta o botão, nós fazemos o resto”, presencia-se um corte radical, não só na história da fotografia, como também na própria história da modernidade. Surge não só uma nova relação com a luz, como também nova relação com o tempo. Fotografar se tornou uma ação, um agir em si mesmo, e com idêntico grau de complexidade, apesar de se diferenciar do ato de escrever. Ou, como define Arthur Omar:

      “Os corpos fotográficos vem substituir os ‘corpos gloriosos’ da doutrina católica, estabelecendo uma nova mortalidade”. (Omar, 1988)

       Esse  é  um em um mundo de imagens. Todos os pensamentos, desejos e fruições estão diretamente relacionados com elas. As imagens são necessarias para melhor compreender o presente, o passado e o futuro. Qualquer que seja a área da ação humana, as imagens estão presentes para interpretar os fatos, explicitar os métodos e avaliar os resultados. Ou, como diz Susan Sontag:

      “Fotografar  é  apropriar-se da coisa fotografada.  É envolver- se numa certa relação com o mundo que se assemelha com o conhecimento – e por conseguinte com o poder”. (Sontag, 1983)

      A cultura contemporânea já  incorporou o visual e o fotográfico. Longe da problemática que conduziu a pintura moderna  à  liquidez de sua própria linguagem, qualquer pessoa pode manipular uma câmera fotográfica, da mesma maneira que se utiliza de uma máquina de escrever, sem compromisso de fazer literatura. Nesse sentido, a produção industrial das formas de representação não é  unilateral, imposta de cima para baixo. As massas não são  passivas e uniformes. Os choques culturais ou ideológicos determinam os tipos de metáforas, arquétipos e esteriótipos dessa indústria. E essas novas formas de leitura exigidas pelas massas surgem no crescente e incessante processo de aperfeiçoamento da vida material, quando o homem se sente cada vez mais divorciado do jogo dos acontecimentos e relegado a um papel cada vez mais passivo. Produzir fotos que evidenciem a exteriorização dos seus sentimentos, já é uma forma de criação. Isso talvez explique porque na fotografia há   uma legião de fiéis de que outros meios expressivos não possuem. A atividade fotográfica, antes de mais nada, conta com uma cumplicidade coletiva.

 

Extraído da Tese:  O FOTOJORNALISMO NOS MOMENTO DE CRISE: A MORTE DE GETÚLIO E TANCREDO – 1990, ECA/USP. Primeira tese brasileira sobre fotografia e fotojornalismo. Autor: Enio Leite

Fontes: 
http://galaxy.intercom.org.br:8180/dspace/handle/1904/13058

http://www.univerciencia.org/index.php/misearch/results

 



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