Entrevista – Araquém Alcântara

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Qual a sua técnica para fotografar a natureza, bichos e pessoas? Detalhe o equipamento que usa.

 O desafio do fotógrafo de natureza e vida selvagem é simplificar o equipamento, porque, na maioria das vezes, é ele mesmo que tem que carregar o fardo. Outro desafio que com o tempo vai se transformando em técnica, é o de se aproximar dos animais, com ajuda de mateiros, biólogos guias ou preferencialmente sozinho. O fotógrafo vai ter que ser cúmplice da solidão, mas da solidão criativa, vai ter que exercitar a paciência e a contemplação. Principalmente a paciência, porque na maioria das vezes a espera ou a caça a uma imagem é feita em condições completamente desfavoráveis. Aí, sob nuvens de mosquitos, calor excessivo ou com os pés enterrados na lama é que o fotógrafo de natureza molda o seu espírito. E começa a aprender que a grande foto demora e só acontece após muita poeira e muitos filmes.

Não procuro, por filosofia própria, planejar detalhadamente minhas viagens. Nem vou atrás de especialistas em fauna e flora para facilitar a tomada de fotos. As informações vêm naturalmente da gente do lugar. Quando vou com assistente, levo a maioria do equipamento: tripé e monopé fibra de carbono da Gitzo, dois corpos Nikon D800, grande angular 20-35mm, 105mm micro, 80-200mm, 300mm 2.8, 300mm 1.4, uma 85mm 1,4, dois flash sb 28, filtros polarizador, skylight, ultravioleta, amarelo, laranja, verde-amarelo, filtros graduate e neutal density.

   Como é a competição com a luz, já que há lugares na mata muito escuros, como enfrentar e/ou aproveitar isso e quais os melhores horários para fotografar? Como tirar proveito das mudanças sazonais das distantes regiões brasileiras?

 Fotografar a mata virgem é a maior dificuldade do fotógrafo de natureza. Tanto é que no Brasil são raros os que se aventuram mata adentro. A Mata Atlântica e a Floresta Amazônica são muito intrincadas, as árvores ficam muito próximas umas das outras e geralmente são envolvidas por cipós, trepadeiras e bromélias. Mas o que complica mesmo é a falta de luz. O fotógrafo localiza a flor ou o passarinho, mas os motivos estão na sombra. Aí, ele pode tentar capturar a imagem com flash (o que necessita de extrema técnica para não artificializar a luz), esperar ou provocar que o motivo receba luz.

Quantas vezes não fiquei esperando horas e horas e saí frustrado, sem ter feito um clic, e quantas vezes não pedi para o passarinho pular para o galho onde batia sol e ele, gentilmente, atender.

O Brasil tem luzes extraordinárias em qualquer época do ano. Mas, em alguns lugares, é preciso evitar determinados períodos. Por exemplo, na Amazônia, no período de muita névoa seca, entre agosto e outubro, ou no Pantanal, neste mesmo período, fica difícil fotografar paisagens ou fotos aéreas. Cada local, cada reserva ou santuário tem um período ideal, de tempo seco e céu azul. Há o período da nidificação, há o período das caminhadas dos animais com filhotes a tiracolo, há o período da floração etc. No entanto, o fotógrafo precisa lembrar sempre que, às vezes, a melhor foto sai depois da tempestade, ou antes ou durante, e mesmo no pior período indicado pelos guias e revistas.

 Suas fotos contêm uma característica especial – o elemento táctil. Consigo visualizar e sentir a textura, me dá sensação de real, me remete ao real. Isso também foi pensado ou é conseqüência de técnica depurada ao longo dos anos?

 O que você percebe nas minhas fotos publicadas em livro, você percebe mais claramente ao ver os originais em conta-fio. Isso é resultado de muita técnica, de uma busca incessante de aperfeiçoamento e também de muita seleção, de muita autocrítica. Preciso fazer muitos livros porque, em editoriais, não posso me livrar dos problemas de fotolito, impressão e a terrível ignorância dos editores sobre fotografia. A banalização das fotos de natureza hoje corre solta. Mesmo assim, como princípio, seleciono e edito apenas as imagens que alcançam um equilíbrio entre contraste, densidade, luz, motivo, enquadramento, composição. Em 29 anos de fotografia descobri que, a cada dia, me torno mais exigente (isso significa que jogo mais imagens no lixo e a cada dia tento me livrar de técnicas e tecnologias). A grande busca é a síntese, a simplificação. Espero, em pouco tempo, estar trabalhando com duas ou três lentes apenas.

 Você diz que minhas fotos dão a sensação do real, remetem ao real. É exatamente isso que eu quero, aperfeiçoar a captura da luz e depois imprimi-la com a maior tecnologia possível, para que ela fique mais impressionante até do que o real. Aquilo que vi jamais será reproduzido, mas eu tento interpretar o que vi para o espectador. Portanto nunca se pense que as minhas fotos refletem a luz real; elas são uma interpretação pessoal, uma abstração. O que você vê é o real interpretado.

 Como criar uma memória geográfica e identidade étnica só através de imagens? Como inserir a denúncia social e quais os critérios para documentar os ecossistemas nacionais? Como fotografar lados opostos: o belo e o horror, o êxtase e a dor?

 Gosto muito desse pensamento de que quanto mais o artista se aproximar de seu povo mais sua obra estará próxima do caráter de sua gente e o conteúdo do seu trabalho, conseqüentemente, irá gerar valores universais. Comecei cantando a minha aldeia, o horizonte possível entre Santos e redondezas, litoral, Cubatão… Mas, antes de qualquer coisa havia a busca da beleza. Dizer coisas através da imagem, através da luz. Fotografava tudo que me comovesse, buscando a harmonia de formas, experimentando técnicas, transgredindo. Aos poucos fui percebendo que tinha nos olhos e nas mãos uma poderosa arma de encontrar o mundo, uma poderosa forma de expressão. O texto (queria ser escritor) ficou proscrito, sucumbiu diante da nova linguagem.

Passei a tropeçar nas palavras, passei a falar visões. Se tinha na minha cara a Cubatão mais poluída do mundo, tinha também o maior porto da América do Sul, com seu formigueiro de homens e máquinas, tinha a miséria dos diques e os mistérios da Serra do Mar, da Juréia, do Lagamar. O belo e o horror, o verso e o reverso. Mergulhei de cabeça. Após o primeiro livro com o paisagista Burle Marx, a natureza e as fotos em cor ganharam primazia. A coisa se dividiu assim: nos primeiros dez anos de fotografia só fazia fotojornalismo, em preto e branco. Depois, veio um período em que fotografava muito pouco preto e branco. E de uns cinco anos para cá, o preto e branco novamente ganhou espaço. Acho que agora vem o equilíbrio.

O Brasil é um país que não cultiva suas riquezas naturais e culturais, não se sente enobrecido com a diversidade de suas etnias, não percebe o valor de seu povo, não protege as suas minorias, não protege os seus santuários. Aqui tudo está por se fazer, e como diz o Caetano, muitas dessas coisas nem bem começaram e já estão em ruínas. Com o desenvolvimento de minha documentação sobre o Brasil percebi que meu trabalho estava se transformando num imenso acervo, num grande arquivo para a memória, para a identidade visual. Naturalmente tudo entrou no mesmo caldo: o registro da natureza vem sempre acompanhado do registro do homem e seu cotidiano. Tornou-se uma coisa indissociável: fotógrafo, a arara, a onça, o rio, a pedra, as montanhas, e o homem caçando, brincando, cantando, sofrendo. O meu objetivo é mostrar o homem e a natureza do Brasil e suas transformações neste final de século, esperando seduzir as pessoas, principalmente os jovens, para conhecer este fantástico patrimônio que possuímos, agir e transformar.

 Um trabalho de documentação, que retrate as belezas naturais e o povo, vai na contramão da indústria cultural, ou seja, vai contra interesses oficiais e a cultura de consumo. Para rebater essa ideologia, ele precisa de uma ideologia própria?

 Durante muito tempo, todo o meu trabalho foi marginal e até utópico. Primeiro, porque sou o pioneiro de um tipo de fotografia que ninguém queria e que não dava dinheiro. Segundo, porque abandonei os jornais para me dedicar exclusivamente a esse segmento. Você conta nos dedos aqueles que se mantiveram autônomos, mais de cinco anos. Sou frila há quase vinte anos e pretendo continuar assim. Trabalho livre, num mercado restrito e poluído, cercado de profissionais incompetentes. Só dá pra levar tendo uma fé e uma certeza inabaláveis e a compreensão plena do alcance de sua linguagem. E não tendo medo de encarar a falta de dinheiro. Há vinte anos atrás cansei de ouvir: “Araquém, larga esse negócio, fotografar miséria e bichos não dá futuro. Abandona isso e faz o que todo mundo quer”. Eis aí o mérito: segui meu coração, ouvi a intuição. Não sei como a fotografia aconteceu, como ela se incorporou, mas sei que sou feliz por tê-la como parceira de vida, ponte para encontrar a beleza, abraçar os irmãos e homenagear a grande obra.

 “Às vezes vejo uma unidade rigorosa de formas, mas deixo de apertar o botão para não magoar pessoas e bichos”. Gostaria que você comentasse essa sua frase.

 O verdadeiro artista tem que ser humanista, cúmplice da tormentosa caminhada do homem. Não posso usar a minha linguagem para ferir pessoas ou animais. Às vezes deixo de fotografar para não invadir, para não interferir. Prefiro o encontro suave, prefiro que elas saibam quem eu sou e o que penso. Prefiro passar uma energia limpa, do estrangeiro que chega com o coração limpo. E fico feliz quando consigo que as pessoas e os bichos se deixem fotografar como se não houvesse fotógrafo, nem câmera fotográfica. Nesses momentos, entro em comunhão com o céu e a terra.     

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Sobre o autor

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