ENTREVISTA COM CALIL NETO (*), O ROQUEIRO FOTÓGRAFO QUE VIU TUDO PELAS LENTES DE SUAS MÁQUINAS.

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Fotógrafo Calil Elias Neto

Tendo em vista a sua participação no “Festival de Águas Claras” conduzido com critérios rigorosos do universo fotojornalistico, partimos para esta entrevista com o consagrado fotógrafo Calil Neto, que viveu duas edições do festival e curtiu muito, sem, no entanto, deixar de se dedicar a uma grande paixão: fotografar.

Daí que partimos para esta conversa, resultando em divulgação de informações até aqui não publicadas e com fotos sendo postadas de forma aleatória, sem que digam respeito ao assunto que naquele momento está sendo comentado, ou a resposta sendo dada. Mas aproveitem para admirar sua qualidade, a beleza que Calil obteve naqueles tempos, com os recursos de então.

São fotos que “retratam” com clareza o momento vivido e as respostas ajudam a compreender o espírito do evento, que ocorreu a partir de 1.975 e foi até 1.984, com quatro edições, em Iacanga, município próximo a Bauru. Estamos em período de comemoração dos 40 anos de realização da primeira edição do Festival de Águas Claras e ninguém melhor que Calil Neto, conhecidíssimo e competente fotógrafo, que atua a partir de Bauru e viveu intensamente o festival e dá aqui sua entrevista ao Vivendo Bauru, que certamente irá enriquecer de informações a quem se interessa pelo tema e “matar a saudade” daqueles que viveram aqueles momentos únicos. Vamos às perguntas:

Vivendo: Calil Neto: você viveu intensamente todas as edições do Festival de Águas Claras?

 – Eu estive nas duas últimas edições, a 3ª e a 4ª, em 1983 e 1984. Eu fui para fotografar, e o Festival foi intenso… Em todos os momentos havia algo interessante acontecendo para fotografar, ou nos shows ou no comportamento do público. Os shows geralmente começavam ao escurecer e terminavam com o dia clareando e durante o dia muita cena interessante por todos os cantos da fazenda. Quem estava lá viveu intensamente, então imagina fotógrafos e jornalistas que não querem nem devem perder nada…

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Foto: Calil Neto

Vivendo: Nas edições que participou, poderia dizer se foi tudo isso que se comenta hoje em dia? Rolava muita droga nos eventos? E pessoas nuas tomando banho de cachoeira? Fato ou folclore?

– Foi um Festival diferente em uma época distinta. Tinha acontecido nos USA o Festival de Woodstock e o Festival de Águas Claras aconteceu aqui no Brasil com a mesma energia: a de uma nova geração que não queria saber de guerras, com pessoas que foram para um evento com o astral em paz para curtir boa música. Eu creio que essa conjuntura astral daquela época formatou um Festival de Música que mostrava à sociedade da época a existência de um “avesso civilizatório”, a chamada “Sociedade Alternativa”; e por isso os Festivais de Águas Claras vivem até hoje na história cultural e social, brasileira. Foi assim: um grande grupo de pessoas que viviam “a paz e amor” reunidas 4 dias na natureza de uma fazenda, ouvindo seus músicos preferidos e vivenciando intensa harmonia com seus pares. Vi muitas pessoas fumando maconha, não era incomum. Não existia naquela época consumo de “Ectasy”, do crack, de anfetaminas e outras drogas; não era comum no Brasil. O ambiente foi bem calmo em todos os dias. Eu não soube de nenhuma briga, violência ou roubo. Havia solidariedade. Vi pessoas repartindo a comida que possuíam. A nudez aconteceu de forma absolutamente natural ao tomarem banho na bica, na corredeira do rio ou no lago. Foi como uma celebração de liberdade com muitos momentos inesquecíveis. Creio que muitos dos participantes saíram de lá diferentes de quando chegaram.

 Vivendo: Qual o artista mais consagrado no festival?

– Renato, vou dividir: teve um ato musical histórico consagrado naquele palco que foi o encontro do Gonzagão com Arthur Moreira Lima tocando e cantando juntos; teve a consagração do primeiro show ao ar livre de João Gilberto; Raul Seixas mesmo porque ele era o que mais encarnava o ideal da maioria do público cuja música “Sociedade Alternativa” era quase como um hino. E consagrado pelos seus pares foi Paulinho da Viola, vi muitos dos músicos que estavam nos camarins virem para a frente ouvir e aplaudir o Paulinho da Viola.

 Vivendo: Quais os artistas de mais nome na época, que subiram ao palco? – Muitos, os citados acima mais Egberto Gismonti, Fagner, Sivuca, Hermeto Paschoal, Erasmo Carlos, Armandinho e Dodô, Moraes Moreira, João Bosco, Jards Macalé, Jorge Mautner, Walter Franco, Sá & Guarabira, Robertinho do Recife, Wagner Tiso…

Vivendo: Houve quatro edições do festival, certo? Por que só se comenta que houve três? A última foi prejudicada e por se dar em dias de carnaval e em razão de um temporal foi cancelada?

– Não creio que tenha sido por motivo do carnaval apenas, porque inclusive o 4º festival começou, toda a estrutura (física e humana) estava montada e funcionando, quando o show teve início. E começou também uma ventania muito forte derrubando colunas de caixas de som, spots de luz das torres de iluminação. Ficou perigoso e acredito que não havia mais condições técnicas de continuar, pelo menos naquele dia. Depois da tempestade veio a notícia de que o 4º Festival havia sido totalmente cancelado.

Vivendo: O que diz de João Gilberto, todo comportado, sendo uma das atrações?

– Para quem não conhece esclareço que até o Festival de Águas Claras o João Gilberto recusava fazer shows ao ar livre. Ele já havia reclamado de temperatura de ar condicionado em casas de espetáculos diversas vezes. Sempre argumentava que toda a exigência dele era importantíssima para não interferir na voz. Então a dúvida de que ele realmente se apresentaria em um local cujo palco estava montado no pasto de uma fazenda, totalmente aberto e vento constante dominando quase todos os presentes. Aí ele sobe no palco feliz e tranquilo, pega seu banquinho, dedilha o violão e começa a cantar suavemente. Imagine quando ele entoou “Isto aqui ô ô, é um pouquinho de Brasil, iá iá, deste Brasil que canta e é feliz…” Foi um delírio!

Vivendo: O que diz de Raul Seixas? Maluco Beleza mesmo? Verdade que deu o maior trabalho para se apresentar pelas condições, digamos… psicológicas?

 – Na minha opinião nenhum artista obtém e mantém o sucesso sendo maluco, descarto essa possibilidade. As letras de suas músicas são atuais, ainda tocam muito… É até possível que ele estava conscientemente à frente de seu tempo. O que eu acho é que Raul reconheceu suas diferenças e assim viveu do jeito que ele era e queria viver. Vi Raul passando mal, mas fisicamente mal. Acho que a partir dessa época Raul foi piorando fisicamente, até sua morte.

Vivendo: O que acha de uma edição do festival em Brotas, conforme se pretende para 2.016? Você estará lá?

 – Acho legal, relembrar o nome do Festival de Águas Claras é muito válido pela história que ele tem. Imagino que o Leivinha esteja procurando formatar um Festival que reviva essa história e que tenha algumas semelhanças, mas creio que todos sabemos que não será igual. Fico tentando imaginar o público nesse novo Festival e acredito que haverá muitos “sobreviventes” dos Festivais presente, mas “um homem nunca é o mesmo homem” com o decorrer do tempo. O público mais jovem não tem os ideais dos jovens daquela época também e até mesmo as drogas (e exigências de segurança) de hoje são outras. Tenho contato com o pessoal que está na produção do novo Festival de Águas Claras, estarei lá sim.

Vivendo: Os feras do rock de hoje, ao que dizem, não tinham nome na época e cumpriam a programação das tardes. Tem alguns grupos que pode citar nessas condições?

 – No Festival que eu participei não havia show à tarde, tinha passagem de som à tarde… Na edição de 1983 teve a participação de uma banda chamada de Sossega Leão, que eu já conhecia de apresentações no Teatro Lira Paulistana em São Paulo. Era uma banda que tocava Salsa e tinha muitos músicos, entre os quais estavam: Guga Stroeter, Nando Reis, André Jung, Paulo Miklos, Skowa… Que continuam com sucesso até hoje no cenário musical brasileiro. Vivendo: Conheceu o Leivinha? Qual seu diferencial, por ter conseguido promover um festival de tamanha proporção? Era um empreendedor, conhecedor de realização de eventos, a par de ser um tremendo de um roqueiro na época? – Conheci o Leivinha sim e sei que ele é um empreendedor: construiu e hoje possui um belo resort chamado Atmã nas encostas da Chapada dos Guimarães em Mato Grosso. Porém o Festival de Águas Claras eu creio que nasceu mais espontaneamente. Do que sei, era um grupo de amigos que misturavam teatro e música; e combinando de fazer os ensaios na fazenda outros músicos souberam de “reuniões musicais” na fazenda, manifestaram o desejo de participar e o grupo foi crescendo e disso tudo surgiu a ideia de fazer um Festival. Uns 4 anos atrás quando fiz uma exposição digital de fotos do Festival, sabendo que aquele que comentamos agora começou no período da ditadura militar no Brasil e o Leivinha enfrentando várias e sérias dificuldades em obter autorização pública para promover o Festival, eu escrevi e perguntei ao Leivinha o que o levou a fazer o Festival e ele me respondeu assim: “Sonho, é que nem trio elétrico, só não vai atrás quem já morreu.”…

Vivendo: Você usou que meio para chegar até lá?

 – Na época era muito moderno: um Fiat 147… fomos: eu, o Ênio Leite (fotógrafo, professor e dono da Focus Escola de Fotografia de São Paulo) e o Silvio Pinhatti (**) (fotógrafo que se tornou um dos melhores laboratoristas do Brasil, faz ampliações fotográficas para Museus, exposições de fotógrafos internacionais, etc). E lá encontramos muitos outros amigos. Vivendo: Qual das quatro edições que de fato foi a melhor? Foi o maior festival do gênero dos realizados no Brasil? – Como eu só fui em 2 e uma delas foi cancelada eu não posso opinar qual a melhor. Também não sei dizer se foi o maior em termo de quantidade de público, mas sei que foi o que fez história. Vivendo: Deu-se logo após Woodstock e por aí pode-se chamar em termos jocosos de “quermesse brasileira do rock?” – De forma alguma, pois são universos distintos. Acredito que falar assim jocosamente denota falta de cultura musical nacional a quem fala. Mas tenho certeza que muitos americanos que admiram música, ao virem a grade de artistas de nosso Festival, ficaram com vontade de estar aqui presente, assim como muitos de nós queríamos estar lá no deles… Em comum o ideal do público.

 (*) Calil Elias Neto foi aluno e professor da Focus Escola de Fotografia nos anos 80

(**) Silvio Pinhatii foi laboratorista e professor da Focus Escola de Fotografia de 1975 a 1985.

Fonte: http://goo.gl/tDZQn0  

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