EXPOSIÇÃO REVELA A ÉTICA E A CURIOSIDADE DE PIERRE VERGER

em Mestres da Fotografia.

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A exposição reúne 120 fotografias vindas da Fundação Pierre Verger, que tem parceria exclusiva com a galeria. Alguns dos trabalhos também estão disponíveis para compra – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Fotógrafo francês ganha mostra em São Paulo que reúne quatro décadas de trabalhos ao redor do mundo

Jornal da USP/Luiz Prado – Editorias: Cultura

Olhar as fotografias de Pierre Verger (1902-1996) é entrar na pele de um espião. A curiosidade discreta desse francês aventureiro descortina realidades distantes nas quais corpos seminus, rituais afro e expressões fortes são apenas o meio das histórias. Seus enquadramentos provocam e aguçam a imaginação como fragmentos de narrativas, convites para pensar o antes e o depois de cada clique da Rolleiflex.

Ficamos impressionados com o ângulo privilegiado e com o olhar instigado que são resultados do constante respeito ao diferente e à diversidade cultural. Verger joga para o observador do seu trabalho provocações etnográficas, questionamentos sobre nossas crenças e preconceitos. Sempre sem se colocar em destaque, deixando a força das cenas gritar. Foi um mestre louco da observação silenciosa.

Uma porção pequena, mas preciosa e representativa do seu trabalho está até 4 de abril na Galeria Marcelo Guarnieri, em São Paulo. Cerca de 120 fotografias inauguram a primeira grande mostra comercial do novo espaço da casa, agora na Alameda Lorena, nos Jardins.

São revelações e ampliações feitas ou supervisionadas pelo próprio Verger, que vão desde o início das suas peripécias fotográficas dos anos 1930 até a década de 1960, quando a imersão no candomblé e nas culturas africanas e afro-brasileiras dominaram sua produção e o tornaram um pesquisador apaixonado.

Quatro eixos organizam conceitualmente a exposição. O primeiro reúne fotografias de 1932 até 1950, início de sua carreira e fase heroica, na qual deu a volta ao mundo vendendo trabalhos para agências, jornais e revistas.

Vindo de uma família burguesa parisiense, Verger conheceu a câmera e a vida errante aos 30 anos, logo após perder a mãe, última parente viva e “a única pessoa que não desejava chocar ao adotar um tipo de vida muito diferente daquele prescrito pelas normas da família”, conforme revelou na biografia Pierre Verger, 50 anos de Fotografia.

É nesse período que visitou a União Soviética durante o 15º aniversário da revolução bolchevique, escambou retratos por viagens de barco, se viu em meio aos tuaregues e registrou os indígenas do altiplano andino. Quase 14 anos consecutivos pelos cinco continentes, de 1932 até 1946, vivendo das fotografias.

Na galeria, essa fase aparece nas pequenas revelações quadradas e em preto e branco, inconfundivelmente feitas com a rolleiflex pendurada no pescoço, entregues a Alliance-Photo e a Magnum ou publicadas na Life e n’O Cruzeiro. Chama a atenção a série sobre o conflito sino-japonês de 1937, no prelúdio da 2ª Guerra, com seus tanques e destroços clicados com olhar documental.

“Comecei a viajar não tanto pelo desejo de fazer pesquisas etnográficas ou reportagens, mas por necessidade de distanciar-me, de libertar-me e escapar do meio em que tinha vivido até então, cujos preconceitos e regras de conduta não me tornavam feliz”, explica Verger em sua biografia.

Para o fotógrafo, jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Atílio Avancini, desde o início o trabalho de Verger desponta como humanista e etnográfico.

“Ele não está preocupado em folclorizar nada, mas em valorizar”, analisa Avancini. “Ele tinha essa atitude humanista e etnográfica e, aliado a isso, um trabalho muito parecido com o do Henri Cartier-Bresson, que é o do flagrante.

Não o flagrante urbano do Bresson, mas um flagrante ligado à fotografia documental, ao olhar e ao recorte. Uma fotografia moderna, que lida com o flagrante e faz uma interpretação do registro, preocupado com o aspecto social.”

Outro núcleo da mostra se detém nas imagens produzidas durante viagens à Bahia e à Costa do Benin, na África. É o período maduro da trajetória de Verger, iniciado em 1946 quando chega ao Brasil e, por sugestão de outro francês, o professor de sociologia da Universidade de São Paulo Roger Bastide, ruma para Salvador.

Lá, o fotógrafo nômade finalmente se sente em casa, fazendo da cidade sua base entre um trabalho e outro e, depois, sua residência definitiva até a morte, aos 93 anos.

Verger se encantou com a tranquilidade, hospitalidade e diversidade cultural de Salvador e, assim como o amigo Bastide, foi arrebatado pelo candomblé. Seu crescente interesse nas tradições afro-brasileiras e africanas o levariam em 1948 para o outro lado do Atlântico, com uma bolsa para estudar o culto aos orixás.

É o surgimento do pesquisador, que reivindicaria espaço junto ao fotógrafo e produziria trabalhos sobre o candomblé, a diáspora africana e as plantas medicinais dos iorubás.

Na África, Verger ressurge como Fatumbi, “nascido de novo graças ao Ifá” e se torna babalaô. Em Salvador, envolve-se com terreiros históricos como Ilê Axé Opô Afonjá e o terreiro de Gantois, além de atuar na criação do Ilê Axé Opô Aganju, em 1972.

Para uma compreensão mais ampla da dimensão que as culturas africanas e afro-brasileiras tomaram em sua vida e trajetória profissional, é significativo destacar a obra Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre o Golfo do Benin e a Baía de Todos os Santos dos Séculos XVII a XIX.

Um estudo colossal de 700 páginas, defendido na Sorbonne, em Paris, que catapultou Verger de estudante expulso do liceu em 1917, e desde então sem nenhuma carreira acadêmica, diretamente para doutor universitário.

A faceta imagética dessa paixão pelas culturas africanas e afro-brasileiras aparece na exposição em registros captados entre meados dos anos 1940 e o início da década de 1950.

São fotografias intensas de danças rituais, transes e sacrifícios, enquadradas com delicadeza e nas quais a imaginação etnográfica soterra qualquer espetacularização folclorista. Adeptos e médiuns aparecem com dignidade e força, figuras capturadas em pleno ritmo vibrante da fé. Na lente de Verger, elas crescem e se tornam imortais.

“Seu trabalho valoriza a cultura afro, que até então foi muito rejeitada”, comenta Avancini, que este ano publicou o livro Lavagem do Bonfim: Formas de Reportar, retratando as mesmas manifestações religiosas que encantaram as lentes do francês há mais de meio século. “São fotos únicas feitas na Bahia. Você não tem outro fotógrafo que tem o trabalho dele. É originalíssimo.”

De volta às viagens ao redor do globo, ampliações autografadas ocupam uma parede inteira da galeria. Integram a parte comercial da mostra e vieram originalmente da exposição Pierre Verger, Le Messager, organizada no Musée d’Art d’Afrique et d’Océanie em 1993 pela Revue Noire, revista pioneira na divulgação da arte contemporânea africana no mercado europeu.

O acervo da Le Messager já havia sido trabalhado por Marcelo Guarnieri em 2015, numa curadoria que destacava o apreço do fotógrafo pelos corpos negros e a tensão homoerótica dos seus cliques.

Nesse espaço, o ritmo de corpos no trabalho e na dança se junta às cenas de rua e de descanso espalhadas entre Bolívia, Brasil, Cuba, Estados Unidos, Japão, Nigéria e Peru. Atiçam o visitante os olhares curiosos ou confiantes dos retratados, expressões que parecem intimar ao diálogo sobre a imagem e seus direitos.

Segundo Françoise Morin, etnóloga e professora emérita da Universidade de Lyon, na França, é a sensibilidade à diversidade cultural, especialmente a das minorias étnicas, que transparece na produção do fotógrafo.

 “Suas imagens demonstram uma grande curiosidade etnográfica e ilustram os modos de vida dos povos visitados”, escreve na apresentação do livro Diálogos entre filhos de Xangô, lançado em 2016 pela Editora da USP e que reúne 27 anos de correspondência entre Verger e Bastide. “Refletem uma certa empatia por esses homens e mulheres fotografados.”

A última parte traz alguns livros editados pela Corrupio, pioneira na divulgação e preservação da obra do fotógrafo. Expõe também outros álbuns (O Mensageiro, 50 anos de fotografia, Memória de Pierre Verger, O Brasil de Pierre Verger) e material documental: revistas, o boneco de uma publicação, uma caixa utilizada pelo artista durante suas viagens. O acervo veio da Fundação Pierre Verger, criada pelo próprio em 1988 e que hoje administra seu legado.

Avancini acredita que ética é a melhor palavra para descrever o legado do fotógrafo. “É como se ele desse voz aos outros”, pondera. “É um respeito muito grande. Não é uma imagem invasiva, mas sim uma imagem que documenta, respeita e escuta, principalmente culturas menos prestigiadas e discriminadas. É um trabalho de muito amor pela cultura do outro.”

A exposição de fotografias de Pierre Verger vai até 4 de abril, de segunda a sexta-feira, das 10 às 19 horas, e aos sábados, das 10 às 17 horas. A galeria Marcelo Guarnieri fica na Alameda Lorena, 1.835, em São Paulo. A entrada é gratuita.

Fonte: https://goo.gl/BPvDLU

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