Magnum: quando o fotojornalismo se fez arte

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Exposição dos setenta anos da história do mundo pelos fotógrafos da Magnum. Robert Capa no desembarque da Normandia, 06/06/1944

A célebre agência fotográfica faz 70 anos. Duas exposições e um livro recordam sua trajetória

El País

“Por que ser explorados por outros?”, perguntava Robert Capa à fotógrafa Gisèle Freund. “Exploremos a nós mesmos.”

A ideia que o fotógrafo húngaro vinha desenvolvendo fazia uma década era completamente revolucionária: a partir daquele momento, os próprios fotógrafos venderiam diretamente seu trabalho ao cliente. Conservariam os negativos de sua obra, assim como o direito autoral, e o direito de controlar o corte da imagem e a legenda da foto, aquilo que até então tinha ficado em mãos das publicações com as quais colaboravam.

Daí surgiu a mais célebre das cooperativas de fotógrafos: Magnum.

Seu nome faz referência não só às grandes, nobres e generosas ambições com as quais nascia a agência, mas também a um tipo de cartucho de arma de fogo (evocando o espírito intrépido do correspondente de guerra) e às garrafas de champanhe de um litro e meio (bebida favorita do carismático Capa) com as quais os fotógrafos celebram suas reuniões anualmente e batizam os novos colegas, bebendo diretamente do gargalo. Já se passaram 70 anos desde que foi desarrolhada a primeira garrafa, em 1947.

Desde então, 92 fotógrafos já contribuíram para a história da agência − e a de todos nós −, fazendo-nos participantes dos acontecimentos mais cruciais desse período, por meio de um discurso visual que soube manter sua idiossincrasia como uma mescla de jornalismo, arte e narrativa. Duas exposições e um livro celebram esse aniversário.

A exposição Magnum Analog Recovery, no centro Le Bal de Paris, exibe pela primeira vez as cópias enviadas pela Magnum a seus agentes europeus para ser distribuídas à imprensa. As imagens vão acompanhadas das declarações dos próprios autores, nas quais indagam sobre seu trabalho, tanto no aspecto ético como no estético.

 “O trabalho de um fotógrafo não consiste em demonstrar nada a respeito de um fato humano. Não somos propagandistas, somos testemunhas do efêmero”, dizia Cartier-Bresson. “Os fotógrafos da Magnum continuam sendo atualmente um símbolo de ética, o que é fundamental em um mundo onde as imagens estão presentes em todos os lados. Os fotógrafos da Magnum oferecem uma visão, uma coerência”, destaca Julie Hèraut, uma das curadoras da exposição.

Foram cinco os fotógrafos fundadores: Robert Capa, David (Chim) Seymour, Henri Cartier- Bresson, George Rodger e Bill Vandivert, juntamente com duas fotógrafas fundadoras, Rita Vandivert e Maria Eisner − raramente citadas no processo constitutivo −, que se encarregaram das funções administrativas.

Foi no conceito fotográfico, diametralmente oposto, de seus dois fundadores mais célebres, Capa e Cartier-Bresson, onde se desenvolveu uma das particularidades mais definidoras da agência: a convivência entre a tendência documental e a tendência artística.

 “Capa defendia um enfoque que exigia o contato direto com os acontecimentos, e contribuiu para criar o fotojornalismo moderno. Cartier-Bresson defendia uma forma de distanciamento que se transformou em um modelo de criatividade para gerações de fotógrafos”, escreve Clément Chéroux no livro Magnum Manifesto. A publicação serve de catálogo para a exposição homônima no International Center of Photography (ICP) de Nova York, da qual Chéroux também é curador.

A exposição percorre a segunda metade do século XX através do olhar de 75 fotógrafos, entre eles Christopher Andersen, Eugene Smith, Raymond Depardon, Elliot Erwitt, Martine Franck, a espanhola Cristina García Rodero, Alec Soth, Paula Fusco e Josef Koudelka, entre muitos outros grandes da fotografia. “A agência é um caldeirão de egos”, destaca Chéroux.

“Os fotógrafos desenvolveram seu próprio caráter forte, seu estilo original e uma resistência à crítica que em alguns casos pode chegar a ser muito veemente.” O debate e a divisão dentro da organização são outras de suas características.

“A Magnum está em um processo de constante mudança e renovação graças a esses debates e evolui em um estado de crise permanente, movida pela missão de cumprir com o ideal de suas aspirações institucionais”, assinala Clara Bouveresse, autora da primeira tese de doutorado sobre a cooperativa, no livro.

Desde o início, os fotógrafos da Magnum não hesitaram em desafiar as normas editoriais das revistas, mas para sobreviver também tiveram de se adaptar a seus clientes. Assim, a agência contratou editores gráficos, entre eles o lendário John Morris, para desempenhar a difícil tarefa de fazer a mediação entre o cliente e o fotógrafo e realizar um cuidadoso trabalho de edição que reforçava o status de autor do fotógrafo. “A Magnum se dedicou ao gênero do ensaio fotográfico, oferecendo a seus clientes reportagens completas, em vez de fotos isoladas cujo uso dependia da decisão arbitrária dos editores externos”, assinala Bouveresse.

Ao longo de sua existência, a Magnum conseguiu se manter como uma referência de qualidade, conservando uma visão fotográfica com compromisso social. Para isso, teve de enfrentar seus endêmicos problemas financeiros, submetendo-se a uma contínua renovação, que significou explorar novos mercados − como o cinema, a publicidade, os livros e a venda de reproduções impressas.

Ela superou as fortes divergências entre seus membros, cuja seleção passa por um processo de quatro anos, e conseguiu adaptar-se às mudanças trazidas pelo mundo digital e pela internet, mantendo sua independência frente à ameaça de ser absorvida por grupos poderosos, como Getty.

Para fazer frente ao declínio do tradicional mercado da imprensa, foi anunciado esta semana o primeiro investimento externo em sete décadas: Nicole Junkermann e Jörg Mohaupt criarão uma nova subsidiária, a Magnum Global Ventures, que se encarregará do controle da empresa em busca de novas oportunidades. Os fotógrafos membros continuarão como proprietários majoritários da marca e de seus copyrights.

Bouveresse aborda em Magnum Manifesto duas questões fundamentais: “A cooperativa representa atualmente a excelência fotográfica? O poder de ‘consagração’ dos fotógrafos, obtido por meio de seu direito de escolher seus companheiros, capacita-os realmente a reconhecer todos os tipos de talento?”.

A controvérsia surge ao se comprovar que há apenas 12 mulheres entre seus integrantes, e a maioria destes é composta por europeus e americanos.

“Na Magnum, como em todos os lados, a integração à agência, que teoricamente deveria ser baseada apenas no mérito, tinha levado a uma reprodução social, no sentido de que os homens brancos tinham escolhido, inicialmente, os mais parecido com eles mesmos”, escreve Bouveresse.

Apesar de tudo, a descrição que John G. Morris fez em 1953 continua valendo: “A Magnum é um modelo de vida. Ela tem possibilitado que seus membros fotógrafos realizem seus sonhos independentes ao compartilhá-los. Coletivamente, defende o individualismo extremo… Nenhum fotógrafo da Magnum é modelo para os demais”.

Magnum Analog Recovery. Le Bal, Paris. Até 27 de agosto.

Magnum Manifesto. International Center of Photography, Nova York. Até 3 de setembro.

Livro – Magnum Manifesto, Clément Chéroux e Clara Bouveresse. Publicado em espanhol pela Editorial Blume. 416 Páginas. 49,90 euros.

Fonte: https://goo.gl/FBFycR

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