Mostra no Paço Imperial conecta de forma inédita fotografias modernistas e contemporâneas

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A exposição Coleção Itaú de Fotografia Brasileira mapeia os últimos 60 anos da produção nacional de caráter experimental; apresentada no início do ano na Maison Européenne de la Photographie, em Paris, a mostra chega ao Rio acrescida de duas séries que remetem aos anos da ditadura militar.

As imagens da série Para um Jovem de Brilhante Futuro, de Carlos Zilio, e outras do livro Viagem pelo Fantástico, de Boris Kossoy, foram realizadas nos anos 70 e remetem à ditadura militar em um momento que pouco se produziu em fotografia de caráter artístico no Brasil. Elas estão estrategicamente expostas na sala 13 de maio – onde Princesa Isabel assinou a libertação dos escravos – uma das seis salas que acolhem a mostra Coleção Itaú de Fotografia Brasileira no Centro Cultural Paço Imperial,  vinculado ao IPHAN, Ministério da Cultura, de 1 de junho a 5 de agosto – com abertura para convidados no dia 31 de maio.

Com curadoria de Eder Chiodetto, a mostra apresenta 115 obras de 56 artistas em um recorte do acervo de arte do Itaú entre o final da década de 1940 até hoje. Assinam as obras nomes como Geraldo de Barros, José Oiticica Filho, Thomaz Farkas, José Yalenti e contemporâneos como Rosângela Rennó, Miguel Rio Branco, Claudia Andujar, Vik Muniz e Rodrigo Braga.

Para Chiodetto, a história da fotografia é um reflexo da história da humanidade. Partindo desse pressuposto, ele desenhou a linha curatorial da exposição caminhando pelos últimos 60 anos da produção brasileira de caráter mais experimental. “É um labirinto por onde podemos perceber a capacidade nacional de absorver e transformar influências estrangeiras e de refletir a vertiginosa história política do país nesse período”, observa. “Encontramos, entre tantas poéticas e pontos de vista, uma expressão pulsante e genuína que hoje coloca o Brasil entre os principais polos de criação artística no campo da fotografia”, conclui.

A mostra exibe dois importantes momentos da fotografia brasileira: o período modernista e o contemporâneo. No primeiro, entre o final da década de 1940 e o início da de 1960, fotógrafos brasileiros criaram no país uma fotografia mais onírica e menos assertiva. Em um de seus desdobramentos auxiliou na conceituação e na criação da corrente artística denominada de Concretismo, sobretudo pela produção do artista Geraldo de Barros. Foi uma resposta, ainda que tardiamente, aos impulsos das vanguardas estéticas europeias do início do século XX.

Com o golpe militar de 1964, no Brasil, o experimentalismo no campo da fotografia arrefeceu por mais de duas décadas – com exceção de trabalhos isolados como o de Zilio e Kossoy, que respectivamente ironizam o milagre econômico brasileiro e a falta de liberdade de expressão.

Após o fim da ditadura militar, a produção fotográfica se volta, finalmente, para questões mais subjetivas e universais, adquirindo contornos ficcionais e pesquisando novos suportes. Essa abordagem se observa, como assinala o curador, no uso da chapa inox de Rosângela Rennó, como metáfora do apagamento e da amnésia; na escala desmedida e surreal de Lenora de Barros; nas colagens que remetem a fábulas de Cássio Vasconcellos; nos recortes que aludem ao tridimensional de Odires Mlászho, que encontram correspondência poética nos modernistas Thomaz Farkas e German Lorca; ou em Neutrino, de Feco Hamburguer, que retoma ludicamente o embate entre still e movimento, fotografia e cinema.

A concepção curatorial da montagem da mostra reserva uma surpresa aos visitantes: Chiodetto optou por desmontar a linha cronológica desses dois instantes criativos da fotografia brasileira e embaralhou as obras dos dois períodos. O intuito é encontrar pontos de contato entre essas duas produções que tiveram a ditadura desmembrando-as. “Ao desmontar a cronologia ficou patente que a herança criativa e a ambição dos modernistas em encontrar a autonomia da fotografia como linguagem transpira de forma inequívoca na produção contemporânea”, observa ele. “Idealmente é uma montagem que elimina o vácuo criativo do período militar. As obras de Zilio e Kossoy funcionam como uma pá de cal nesse período. Dessa forma achei oportuno justapor imagens-metáfora dos anos de chumbo na sala 13 de maio, lugar histórico onde o país se livrou da escravidão”, completa.

As salas que abrigam a Coleção Itaú de Fotografia Brasileira se organizam a partir da conexão entre artistas e obras, como a primeira delas em que obras de artistas referenciais como Miguel Rio Branco, Claudia Andujar, Mario Cravo Neto retomam temas clássicos da discussão acerca da identidade nacional, como a miséria e a herança negra e indígena, para dar a eles uma dimensão metafísica e mitológica.

A paisagem urbana está no foco de uma das salas reunindo obras de Rodrigo Torres, Marcia Xavier, Bruno Veiga, Marcos Chaves, German Lorca e José Yalenti, entre outros. A percepção apurada da luminosidade, a poética da escrita da luz, é o mote sob o qual se organizam, em outra sala, obras de artistas como Lucia Koch, Vik Muniz, João Musa, Vicente de Mello e Guilherme Maranhão, além dos modernistas Georges Radó e Eduardo Enfeldt.

A pesquisa aprofundada que visa à criação de um universo estético particular e a constituição do trabalho em séries longas são traços marcantes da nova geração de artistas representada pelos trabalhos de João Castilho, Rodrigo Braga, Breno Rotatori, Cao Guimarães e Caio Reisewitz, que surgem na última sala expositiva ao lado de seres mitológicos criados por Cris Bierrenbach e Marepe.

Na Coleção Itaú-Iniciado há mais de 60 anos pelos fundadores do Banco Itaú, o acervo conta hoje com 12 mil obras, entre pinturas, gravuras, esculturas, fotografias, instalações e as peças das coleções Itaú Numismática e Brasiliana Itaú. Gerenciado pelo Itaú Cultural, cobre toda a história da arte brasileira, com peças referenciais de cada movimento e estilo.

“Esta mostra faz parte do esforço permanente do Grupo Itaú para que o grande público tenha acesso aos diferentes recortes de sua coleção”, observa Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural. Em 2011, o Itaú Cultural realizou 14 exposições itinerantes vistas por mais de 320 mil visitantes: Coleção Brasiliana Itaú (em Fortaleza, Brasília e Curitiba), Fotografia Modernista (em Belém, Paraguai e Cidade do México), Brasiliana Fauna e Flora (no Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai), O Egito Sob o Olhar de Napoleão (no Espaço Memória/SP), Arte Cibernética – Acervo de Arte e Tecnologia do Itaú Cultural (em Porto Alegre) e 1911-2011 Arte Brasileira e Depois, na Coleção Itaú (em Belo Horizonte e Rio de Janeiro).

[Coleção Itaú de Fotografia Brasileira, dia 1º de junho a 05 de agosto, de terça-feira a domingo, 12h às 18h, no Paço Imperial,no Centro Cultural Paço Imperial – IPHAN/MinC,Praça XV, 48.Entrada Franca |Telefone (21) 2215-1195| www.pacoimperial.com.br]

 Fonte: http://goo.gl/YxJ5O

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