O “abismo” na fotografia

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Segundo a imprensa internacional era mais apenas um serviço de rotina…

Pedro Rolo Duarte/Sapo Pt

Há polêmica sobre a fotografia do ano do World Press Photo. A foto, como já é sabido, é um instante do momento dramático em que um atirador isolado, Mevlut Mert Altintas, dispara sobre o embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov, na inauguração de uma exposição na Galeria de Arte Contemporânea de Ancara.

O autor da imagem é o turco Burhan Ozbilici, da Associated Press, que terá decidido passar pela Galeria sem serviço marcado.

Há quem ache que a imagem mistura sensacionalismo com publicidade aos efeitos do terrorismo, e que ter ganho, num ano em que estão também a concurso fabulosas imagens do drama dos refugiados, e da emigração na Europa, é injusto.

Os argumentos podem ser razoáveis, mas são pobres. Aquela fotografia revela o estado em que estamos nos dias de hoje, a imprevisibilidade dos dias, o parco valor da vida, o confronto entre culturas e forma de vida – ou de morte.

As palavras de João Silva, o fotógrafo luso-descendente que foi premiado, e agora é jurado, do World Press Photo, dizem tudo sobre a escolha do júri: “Vejo o mundo a caminhar em direção a um abismo. Este é um homem que claramente chegou a um ponto de ruptura”. É essa ruptura com que nos confronta Burhan Ozbilic (cujo sangue frio e a coragem não é demais sublinhar), como se fosse uma prova, uma testemunha, uma evidência.

Todos vimos o vídeo que captou o momento, mas a imagem fixa, parada, do atirador a erguer a pistola, com o corpo do embaixador inerte no chão, tem qualquer coisa de ainda mais negro – nem que seja pelo instantâneo que se revela pela falta de enquadramento, a surpresa que toda a composição mostra, e a loucura que o quadro exibe cruamente. Uma imagem definidora de um tempo e da forma como o podemos ver.

De resto, a imagem é também simbólica para os momentos que o jornalismo vive, e para responder de forma meridiana, mas exemplar, às “não-verdades” que por aí andam: os que a acusam de promover o terrorismo pretendem que não se veja o que efetivamente acontece? Num instante me lembro de, até ao 25 de Abril de 1974, serem cortadas pela censura todas as notícias que revelassem suicídios, para não contagiar a população nem mostrar realidades incomodativas.

Não me parece, de todo, um bom caminho para voltar a ter a verdade ao serviço do jornalismo e os factos verificados e confirmados por quem os testemunha. O que o fotógrafo da AP fez foi justamente servir o jornalismo, mostrando um fato tão incómodo e chocante quanto verdadeiro, e raras vezes visto no momento em que ocorre; foi denunciar o tal “abismo”, a que chamo loucura, que varre o planeta e nos deixa diariamente aturdidos e confusos sobre os caminhos que levamos; foi registar, correndo risco de vida, o instante preciso em que o atirador se revela barbaramente satisfeito com o crime que acaba de cometer.

É bom que tenhamos a noção de que vivemos lado a lado com pessoas como esta, e que amanhã esta imagem nos pode bater à porta sob a forma de um fato inesperado, daqueles que achamos que “só acontecem aos outros”. Nessa medida, esta fotografia é a um tempo um grito e um sinal. Sem encenações. Sem filtros. Sem recurso a dramatismos exteriores ao que os factos já encerram.

Como se estivéssemos a voltar a um qualquer começo, é o jornalismo na sua essência. Puro e duro. Surpreendente e chocante. Mas sempre verdadeiro. No momento que vivemos, em que a verdade se inventa e os fatos se esfumam, isso vale mais. Para não dizer que vale tudo.

Por falar em imagem…

Uma boa foto-reportagem (do LA Times) do drama que viveram (e vivem…) as populações à volta da barragem de Oroville, nos EUA, no norte da Califórnia, ameaçadas pela ruptura da estrutura, ameaçada por tempestades que ainda podem causar maior destruição hoje, quinta-feira. A ordem de evacuação passou a alerta, mas todos os cuidados são poucos…

… E um excelente vídeo, que mistura habilmente infografia com imagens, do mesmo jornal, explicando o fenómeno de Oroville e todo o seu enquadramento. Mais um bom exemplo do jornalismo em tempos multiplataforma.

Por fim, agora sem imagens, ou um sinal de que câmeras de vigilância já não querem dizer nada sobre o Big Brother que paira sobre nós: uma matéria da Bloomberg/Business Week sobre os sensores que, nas empresas, detectam a presença ou ausência dos trabalhadores nos seus postos de trabalho. Assustador, no mínimo.

Fonte: https://goo.gl/NUEdOk 

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AUTOR DO PROJETO e MEDIADOR DESSE BLOG: Prof. Dr. Enio Leite Alves, nascido em São Paulo, SP, 1953. PROF. DR. ENIO LEITE:

Área de atuação: Fotografia educacional, fotografia autoral, fotojornalismo, moda, propaganda e publicidade. Pesquisador iconográfico. Sociólogo, jornalista, físico, fotoquímico, inventor e docente universitário. Fotografo de imprensa desde 1967, prestando serviços para os Diários Associados e professor do Sesc e do Curso de Artes Fotográficas Senac Dr. Vila Nova, São Paulo. Fotografo do Jornal da Tarde em 1972 -1973.
Em 1975, funda a FOCUS – ESCOLA DE FOTOGRAFIA, primeira instituição de ensino técnico e tecnológico da AMÉRICA LATINA.

No mesmo ano, suas fotos são premiadas na 13ª Bienal Internacional de São Paulo, quando a fotografia passa a reconhecida pela primeira vez como obra de valor artístico.
Fundador do MOVIMENTO PHOTOUSP no início dos anos 70, com Raul Garcez e Sergio Burgi, entre outros, no centro acadêmico da Escola Politécnica, na Cidade Universitária, São Paulo-SP.

Professor de fotografia publicitária da Escola Superior de Propaganda e Marketing, (ESPM), 1982 a 1984. Mestre em Ciências da Comunicação em 1990, pela Escola de Comunicação e Artes, USP.
Doutor em História da Fotografia, Fotoquímica, Óptica fotográfica e Fotografia Publicitária Digital, em 1993, pela UNIZH, Suíça. No ano de 1997 obteve Livre Docência na Universitá Degli Studi di Roma Tre. Professor convidado pela Miami Dade University, Flórida, 1995.

Pesquisador e escritor, publicou o primeiro livro didático em língua portuguesa sobre fotografia digital, Editora Viena, São Paulo, maio 2011, já na quarta edição e presente nas principais universidades brasileiras portuguesas.

Colabora com artigos, ensaios, pesquisas e títulos sobre fotoquímica, radioquímica, técnica fotográfica, tecnologia digital da imagem, semiótica e filosofia da imagem para publicações especializadas nacionais e internacionais. (Fonte: Agência Reuters – 17/11/2017)

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