O ‘real subjetivo’ nas fotos de Horacio Coppola

em Anúncios, Notícias.

Horacio Coppola,  fotografia alemã, Walter Peterhans, Henri Matisse, Georges Braque, Fernand Léger, Pablo Picasso,   Alfred Stieglitz Galeria 291,    Jorge Luis Borges, leica, Rodtchenko, Moholy-Nagy, Jorge Schwartz, Paul Strand, Thomaz Farkas, Museu Lasar Segall,Manuel Álvares Bravo, Brassai, Eugene Atget , Kertez

Esta foto faz parte da exposição ‘Horacio Coppola: Visões de Buenos Aires’

O fotógrafo argentino Horacio Coppola faleceu mês passado, pouco antes de completar 106 anos de idade, depois de atravessar o último século como uma referência maior da fotografia latino-americana. Sua principal obra, o livro “Buenos Aires 1936 — Visión fotográfica”, uma encomenda do governo argentino em comemoração aos 400 anos da sua capital, incorporou todos os caminhos que a fotografia vinha descortinando desde o começo do século XX, afirmando sua linguagem própria no campo da expressão plástica, e, assim, antecipou em mais de uma década o que seria o modernismo no continente.Naquele momento, Buenos Aires aparecia como uma metrópole moderna, embora ainda comprometida com algo de um passado oitocentista e uma arquitetura vernacular simples e funcional. Era a matéria-prima ideal para o exercício expressivo do jovem fotógrafo, que acabava de chegar da Europa, onde tinha bebido nas melhores fontes da vanguarda fotográfica — de Paris e Londres a Berlim, com uma breve passagem pela mítica Bauhaus, onde frequentou o curso do renomado mestre alemão Walter Peterhans — e convivido com algumas das personalidades artísticas mais marcantes do século, como Henri Matisse, Georges Braque, Fernand Léger e Pablo Picasso, dentre outros. Não é por acaso que, com a fotógrafa alemã Grete Stern, sua esposa, organizou em 1935 a primeira exposição de arte moderna na Argentina, nos salões da Editorial Sur. Impossível não pensar no paralelo com o fotógrafo americano Alfred Stieglitz que, por sua vez, fez em 1907, na sua famosa Galeria 291, em Nova York, a primeira exposição na América da moderna pintura europeia, com Picasso e outros.

Da Alemanha, Coppola tinha trazido uma recém-inventada câmera Leica, o instrumento por excelência do fotógrafo flaneur, que foi sua companheira de andanças pela cidade, muitas vezes acompanhado pelo amigo poeta Jorge Luis Borges, que, segundo ele, o fez descobrir o encanto dos subúrbios. A utilização da Leica certamente lhe permitiu agilidade no registro, recolhendo detalhes significativos que produzem sentido, uma das marcas da sua fotografia, e precisão na busca do rigor geométrico que marcava a sua vivência europeia. De fato, Coppola tinha voltado impregnado pela estética da chamada Nova Visão, vertente fotográfica da Neue Sachlichkeit, a Nova Objetividade da pintura alemã dos anos 1920 (como vemos na foto da Avenida Presidente Roque Saenz Peña).

Entretanto, o diálogo de Coppola com a vanguarda fotográfica de então foi além. Em muitas imagens, é flagrante a mesma estética que encontramos na corrente norte-americana Straight Photography e no movimento construtivista alemão. Da mesma forma que muitas das suas fotos poderiam ter sido feitas por Paul Strand, outras tantas remetem a Rodtchenko e Moholy-Nagy. Mas o que faz a riqueza da obra de Coppola é que ele também aplicou com maestria os exemplos de andarilhos urbanos como Eugene Atget e Brassaï (“Café Victoria”, por exemplo, poderia estar em “Paris de la Nuit”, obra-prima de Brassaï publicada em 1932, quando o argentino andava pela Europa). Ele ainda dialogou com humanistas com Kertez (e, como ele, fez muitas imagens da sua janela) e teve seus momentos de Manuel Álvares Bravo, outro grande ícone maior da fotografia do continente que também chegou a ser centenário (basta ver as suas surrealistas imagens de vitrines e manequins). Sua curiosidade plástica, por sinal, parece vir desde sempre, já que, em 1929, antes mesmo da sua viagem iniciativa à Europa, já nos apresentava imagens abstratas que anunciavam o que fariam na década de 1950 os modernistas brasileiros, como Geraldo de Barros, Thomaz Farkas e José Oiticia Filho.

Tivemos no Brasil poucas exposições de Coppola. Em 1993, ele participou, com outros autores argentinos e brasileiros, da coletiva “Fotos paralelas”, realizada no Rio de Janeiro. Anos depois, em 2007, o Instituto Moreira Salles apresentou, no Rio e em São Paulo, “Visões de Buenos Aires”, cujo catálogo traz um rico texto de Jorge Schwartz. Já o Museu Lasar Segall (SP), em 2010, fez uma aproximação da sua obra com a da fotógrafa Hidegard Rosenthal, que documentou São Paulo na mesma época em que Coppola trabalhava em seu livro sobre Buenos Aires.

A boa notícia é que vem aí uma nova exposição de Horácio Coppola, desta vez com a documentação da obra de Aleijadinho produzida em 1945 e adquirida pelo Instituto Moreira Salles em 2007. Com curadoria de Luciano Migliaccio, será aberta no próximo dia 17, no IMS de São Paulo, a exposição “Luz, cedro e pedra: esculturas de Aleijadinho fotografadas por Horacio Coppola”. Bom momento para homenagearmos o fotógrafo que foi além do simples registro, buscando rastros de realidade que revelassem um “real subjetivo”, como a alma das ruas de Buenos Aires e o drama contido delicadamente nas figuras do mestre do barroco mineiro.

Fonte: http://goo.gl/32BgZ

Sobre o autor

ATENÇÃO: OS TEXTOS, MATÉRIAS TÉCNICAS, APRESENTADAS NESSE BLOG SÃO PESQUISADAS, SELECIONADAS E PRODUZIDAS PELOS ALUNOS, PROFESSORES E COLABORADORES DA FOCUS PARA USO MERAMENTE DIDÁTICO E COMPLEMENTAR ÁS AULAS DE FOTOGRAFIA NAS MODALIDADES DE CURSOS PRESENCIAIS OU A DISTÂNCIA EAD, MANTIDOS PELA FOCUS ESCOLA DE FOTOGRAFIA, SEM QUALQUER OUTRO TIPO DE PROPÓSITO, RELEVÂNCIA OU CONOTAÇÃO. PARA MAIORES INFORMAÇÕES CONSULTE https://focusfoto.com.br A Focus é a única escola de fotografia no Brasil, que oferece ao aluno o direito de obter seu REGISTRO LEGALIZADO DE FOTÓGRAFO PROFISSIONAL, emitido pelo Ministério do Trabalho, por meio de cursos com carga horária total de 350 horas, incluindo períodos de estágio, preparo e defesa de TCC OS CURSOS DA FOCUS ESCOLA DE FOTOGRAFIA SÃO RECONHECIDOS PELA LEI N. 9.394, ARTIGO 44, INCISO 1 (LEI DE EDUCAÇÃO) O REGISTRO DE FOTÓGRAFO PROFISSIONAL é unificado, sendo o mesmo obtido pelas melhores Universidades Públicas do Estado de São Paulo. E você poderá obtê-lo EM QUALQUER MODALIDADE DE CURSOS DA FOCUS, presenciais ou a distância EAD em menos de 6 meses de curso. O aluno obterá seu REGISTRO DE FOTÓGRAFO PROFISSIONAL diretamente nas agências regionais do Ministério do Trabalho e Emprego. Este registro é fundamental para o exercício legal da profissão, constituição de seu próprio negócio, ingressos em concursos públicos e processos admissionários em empresas de fotografia, públicas ou particulares, bancos de imagens, agências de notícias, jornalismo e consularização de seu registro de fotógrafo, caso queira trabalhar em outros países ou Ongs. Internacionais, como "FOTÓGRAFOS SEM FRONTEIRAS" entre outras modalidades. SEJA FOTÓGRAFO DEVIDAMENTE REGULAMENTADO. QUALIDADE E EXCELÊNCIA EM EDUCAÇÃO FOTOGRÁFICA É NOSSO DIFERENCIAL HÁ MAIS DE QUATRO DÉCADAS. Os alunos recém-formados pela Focus competem em nível de igualdade com fotógrafos profissionais que estão no mercado há mais de 30 anos. Na FOCUS, o aluno entra no mercado de trabalho pela porta da frente! Os alunos, após formados, são encaminhados para o mercado de trabalho. Cursos 100% práticos, apostilados e com plantão de dúvidas. Faça bem feito, faça Focus! Há mais de 44 anos formando novos profissionais. AUTOR DO PROJETO e MEDIADOR DESSE BLOG: Prof. Dr. Enio Leite Alves, Professor Titular aposentado da Universidade de São Paulo, nascido em São Paulo, SP, 1953. PROF. DR. ENIO LEITE: Área de atuação: Fotografia educacional, fotografia autoral, fotojornalismo, moda, propaganda e publicidade. Pesquisador iconográfico. Sociólogo, jornalista, físico, fotoquímico, inventor e docente universitário. Fotografo de imprensa desde 1967, prestando serviços para os Diários Associados e professor do Sesc e do Curso de Artes Fotográficas Senac Dr. Vila Nova, São Paulo. Fotografo do Jornal da Tarde em 1972 -1973. Em 1975, funda a FOCUS – ESCOLA DE FOTOGRAFIA, primeira instituição de ensino técnico e tecnológico da AMÉRICA LATINA. No mesmo ano, suas fotos são premiadas na 13ª Bienal Internacional de São Paulo, quando a fotografia passa a reconhecida pela primeira vez como obra de valor artístico. Enio Leite, fundador do MOVIMENTO PHOTOUSP no início dos anos 70, com Raul Garcez e Sergio Burgi, entre outros, no centro acadêmico da Escola Politécnica, na Cidade Universitária, São Paulo-SP. Professor de fotografia publicitária da Escola Superior de Propaganda e Marketing, (ESPM), 1982 a 1984. Mestre em Ciências da Comunicação em 1990, pela Escola de Comunicação e Artes, USP. Doutor em História da Fotografia, Fotoquímica, Óptica fotográfica e Fotografia Publicitária Digital, em 1993, pela UNIZH, Suíça. No ano de 1997 obteve Livre Docência na Universitá Degli Studi di Roma Tre. Professor convidado pela Miami Dade University, Flórida, 1995. Pesquisador e escritor, publicou o primeiro livro didático em língua portuguesa sobre fotografia digital, Editora Viena, São Paulo, maio 2011, já na quarta edição e presente nas principais universidades brasileiras portuguesas. Colabora com artigos, ensaios, pesquisas e títulos sobre fotoquímica, radioquímica, técnica fotográfica, tecnologia digital da imagem, semiótica e filosofia da imagem para publicações especializadas nacionais e internacionais. (Fonte: Agência Estado - 12/03/2019)

Deixe seu comentário

  • (não será mostrado)